Diálogos Ancestrais

Com o apoio do MinC, Ministério da Cultura, o Instituto Tambor representado por seus líderes, Luiz Poeira e Flavia Mazal, passou uma temporada em Conacri, capital da Guiné (África Ocidental) para a realização de intercâmbio cultural e estágio de aperfeiçoamento técnico em dança e construção de tambores. Nesta missão, participou também Olivia Barcellos.

Flavia e Olivia passaram toda a temporada recebendo aulas e praticando com o mestre Youssouf Koumbassa, professor de dança africana estilo guineano mais importante do cenário artístico internacional.

Poeira foi em busca dos mestres dos tambores e por indicações, foi apresentado a Ibrahim Camarah, conhecido como Ibou, jovem artesão de instrumentos de percussão. Ibou, então, ficou incumbido de levar Poeira aos mestres.

O início de uma jornada

Na função de trilheiro, Ibou tomou a dianteira e juntamente com Poeira percorreram por mais de três horas, via transporte público e caminhando, até chegarem na oficina dos mestres.

Poeira foi apresentado aos dois mestres, artesãos, Kenda e Amadou; ambos com aproximadamente setenta anos, magros, com muita musculatura aparente, provável resultado do esforço de escavar troncos e puxar cordas na confecção dos tambores.

Nos primeiros momentos houve um certo estranhamento por parte dos mestres dando a entender que houve uma certa rejeição em receber Poeira para estagiar na oficina. É sabido que as técnicas de construção de tambores são valores culturais da ancestralidade guineana passadas oralmente de pai para filho. Poeira foi autorizado a ficar na oficina e dada a sua dedicação, habilidade e qualidade dos resultados, foi gradativamente sendo aceito e reconhecido por Kenda e Amadou, e assim, permaneceu por quinze dias.

Poeira desenvolveu um vínculo especial com os mestres, senão afetuosos, com mestre Kenda, por exemplo, que passava a maior parte do tempo calado, quando falava algo, era em “Susu” (idioma da Guiné) entrelaçado com francês – detalhe, Poeira, não entendia francês, tampouco Susu. No final, a comunicação se dava por meio da gestualidade, muita percepção e sensibilidade, mas o suficiente para aprender a construção do Krin, uma espécie de tambor de fendas.

A construção de alguns instrumentos se dá sobre troncos virgens e requerem ferramentas específicas. Forjadas em ferro e de aparência primitivas, Poeira adquiriu um conjunto delas para que os instrumentos pudessem ser reproduzidos no Instituto Tambor.

Com Ibou, Poeira aprendeu a fazer o Gogôma, um instrumento com base em uma cabaça grande e teclas de metal, aparentemente da mesma família das Kalimbas.

Diálogos Ancestrais, uma experiência inestimável que proporcionou melhoria da técnica e maior qualidade aos produtos do Instituto Tambor, todavia, certos que atendemos a chamada do espírito do tambor com humildade no coração.